COMUNIDADE CRISTÃ

junho 13, 2008

ABRAÇO, UM SACRAMENTO

Filed under: Uncategorized — comuncrista @ 9:56 pm

Foto: Manu Souza

 

Em todas as nossas celebrações há pelo menos dois momentos em que somos convidados a nos abraçar: o abraço da paz, que ocorre durante a Eucaristia e a saudação aos visitantes, que ocorre no final de cada culto. Estes momentos não são sociais, simplesmente. Nem devem ser vistos como uma formalidade que integra a liturgia episcopal. São, antes, momentos de comunicação de vida e paz. Muitas pessoas já me disseram que foram mais tocadas espiritualmente pelo abraço que pelo sermão e pelos louvores, e o interessante é que os ministros deste sacramento somos todos nós. Não apenas os pastores, que são sacerdotes, ou as pessoas do louvor, que são levitas, mas cada cristão que carrega em seu coração o verdadeiro amor de Cristo.

O apóstolo Paulo, em muitas de suas epístolas, estimula as igrejas a que mantenham o hábito de usarem o beijo espiritual (ósculo santo) como saudação. Durante muito tempo pensei que isto estava relacionado tão somente a traços culturais. Hoje creio que o nosso irmão estava nos dizendo: “não desprezem o toque, as manifestações palpáveis de afeto e carinho, as percepções sensíveis de acolhimento e aconchego”. Há saúde nisso, há vida, edificação, consolação e esperança. Ainda mais em nossos dias, em que nossa sociedade se tornou tão individualista, materialista, tendente a usura e a descartabilidade, abraçar e ser abraçado se tornou essencial. Abraço sem erotismo, sem gestos aduladores, sem formalismo. Só amor, desejos proféticos de paz e alegria, toques eloqüentes na tarefa de dizer: “somos irmãos e você é muuuuito importante para mim”.

Não é sem razão que os antigos colocaram o abraço da paz no meio do sacramento da Eucaristia. Ele deve ser encarado como ato sacramental, denso de espiritualidade, cheio de transcendência, ou seja, que ele seja mais do que o que se pode ver ou sentir, que seja signo de algo maior, oculto no coração e revelado (ainda que só parcialmente) pelo toque de dois irmãos. Às vezes algumas pessoas se sentem desconfortáveis em nossos cultos e dizem: “vocês se agarram de mais”. Talvez esteja nisso um pouco da cultura anglo-saxã e nós precisamos respeitar isso. Mas ocorre que nós somos latinos, e não apenas isso, brasileiros e, se isso ainda é pouco, nós somos nordestinos. Amamos abraçar, beijar e andar juntos. É bom que seja assim.

Vivemos em um mundo que se assemelha a uma selva. Nele todos são ou caça ou caçador. Fomos educados a desconfiar de qualquer pessoa que se aproxime de nós e à medida que alguém vai diminuindo a distância nos sentimos obrigados a responder a pergunta que vem de regiões profundas de nossa alma: “é pra correr pra cima (se for uma possível presa) ou é pra correr pra longe (se for um potencial predador)?”. E acabamos nos comportando exatamente assim. Jesus veio ao mundo para nos tirar da selva e nos levar de volta ao jardim (em grego paradiso). Lá as regras são outras, o leão e o cordeiro pastam juntos; os filhotes do urso e o cabrito brincam juntos e uma criança os conduz. Nós não temos que esperar a morte chegar para conhecermos o paraíso; podemos construir pequenas antecipações aqui onde estamos. A este céu que, apressado, desce à terra o Salvador chamou de “reino de Deus”, e ele disse que o reino de Deus estava dentro de nós.

A esta altura você deve estar dizendo: “menos Martorelli, menos…, não sejamos utópicos!” Aí eu preciso concordar com você. A palavra utopia é composta por duas outras palavrinhas gregas: ou (que significa não) + topos (que significa lugar). Utopia, portanto, não é algo impossível, irrealizável, é só algo que não tem lugar, que não encontrou (ainda) um lugar. Vamos nos oferecer, pessoal e coletivamente, como topos em que se encarne o reino prometido. Então, este salão em que nos reunimos deixará de ser apenas um templo e se converterá em um oásis de calma e paz, uma fonte de esperança e Espírito. Eu não posso fazer isso acontecer sozinho, esta é uma construção coletiva, sem você e sua abertura e disponibilidade milhares de pessoas continuarão na selva, sem conhecer, nem por um momento sequer, as delícias do reino de Deus.

 

Um abraço,

Martorelli Dantas

       martorelli@martorelli.org

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1 Comentário »

  1. Essa coisa de abraço é meio complicada e não necessariamente em cultura anglo-saxã rsssss e sim na alma confusa mesmo do pobre latino.
    Ou latina.
    Falo isso -e considero oportuno- porque dias atrás, em momento “pós-litúrgico” não sei se fui mais surpreendida por um abraço que eu creio firmemente ser de paz, ou se pelos olhares fulminantes que me diziam que o erotismo às avessas marcara presença.
    Eu, porém, recebi aquele abraço considerando tão-somente o acolhimento e o aconchego da mensagem nele contida.
    “Há saúde nisso, há vida, edificação, consolação e esperança!”
    Eu creio!
    Abs…

    Comentário por Regina Farias — junho 15, 2008 @ 11:16 am


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