COMUNIDADE CRISTÃ

julho 25, 2008

ESCOLA DE PREGADORES

Filed under: Uncategorized — comuncrista @ 7:48 pm

As atividades da Escola de Pregadores mudou de dia. A partir da próxima semana, os estudos serão realizados todas as terças, no mesmo horário e local. O objetivo essencial do estudo é preparar homens e mulheres que desejam conhecer melhor a Bíblia Sagrada para tornarem-se pregadores do Evangelho da Graça, como foi vivido e ensinado por Jesus de Nazaré.

SERVIÇO:

Escola de Pregadores

Dia: Toda terça-feira

Hora: 20h

Local: Casa do Pastor Martorelli

 

Programa da Escola de Pregadores

  1. Conceito, essência e objetivo da pregação cristã
  2. Bases da pregação cristã
  3. Formas clássicas de pregação
  4. Elementos essenciais da pregação – visão panorâmica
  5. Introdução – cativando a atenção dos ouvintes
  6. Elucidação – convidando a atenção para o texto bíblico
  7. Tema – idéia central a ser comunicada
  8. Desenvolvimento – corpo da mensagem e argumentação e favor do tema
  9. Conclusão – fechando com chave de ouro
  10. Aplicação – convite a uma tomada de posição ante a mensagem
  11. Modos de avaliação do desenvolvimento do pregador
  12. Tentações na vida do pregador – visão panorâmica
  13. Pregação e o cinismo
  14. Pregação e o mecanicismo
  15. Pregação e a mensagem que vida agradar ao público
  16. Pregação exclusivamente de denúncia
  17. Pregação capuz
  18. Pregação e o mimetismo
  19. Pregação e uma vida sem oração
  20. Compartilhando o que Deus tem lhe falado com o maior número de pessoas
  21. Mantendo a pregação nos limites da revelação do Evangelho
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UMA TORTURA CHAMADA SOLIDÃO

Filed under: Uncategorized — comuncrista @ 7:39 pm

Ando lendo Fernando Pessoa, não seus poemas e tratados, mas suas cartas íntimas. Escritas de Lisboa ao amigo Cortes-Rodrigues nos anos entre 1914 e 1916, quando a Europa se debatia nos horrores da primeira guerra (nego-me a chamá-la de “grande”, para mim toda guerra é pequena, posto que o é em seus motivos e propósitos). Confesso que me sinto intruso em um universo secreto, feito não para mim ou para os que as lêem hoje, mas para aquele em quem confiava o coração do poeta, a ponto de lhe falar de suas crises emocionais, seus desertos criativos, suas freqüentes depressões, suas ambições revolucionárias… a ponto de lhe pedir (com freqüência, diga-se) dinheiro emprestado. Até nisso as cartas me consolam. Notem que, diferentemente do que se diz alhures, a condição econômica nada tem a ver com o gênio dos homens ou com as empresas a que se dedicam. A história está cheia de “quebrados” brilhantes, com imorredouros legados. Mas não façamos disso uma virtude… há aqueles que nem sábios, nem doutos, nem empreendedores são apenas desafortunados, no sentido etimológico da palavra.

Pessoa é uma alma outonal. Lendo-o sinto o vento frio e cortante das tardes em que caem descansadas as folhas na capital lusitana. Na verdade, ele deveria se chamar Fernando Pessoas, já que seus heterônimos (outros nomes com que escrevia) são pessoas completas, com data de nascimento e morte, com quem dialoga o poeta. Ele não simplesmente os cria, ele cria neles, ele sofre e convive com eles. Imagino ser o resultado da busca de convivência, de laços comunais, na vida de quem a solidão machucava tanto. Esta é a razão pela qual, no final de cada carta, Fernando não apenas pedia que seu amigo lhe escrevesse logo de volta, mas, também, que o fizesse longamente. O ser humano não foi feito para a solidão, esta lhe é agressiva e enlouquecedora. Os generais sabem disso, e fizeram da “solitária” uma das mais severas e profundas torturas. Não precisam bater, humilhar ou ameaçar o detento. Basta deixá-lo sozinho, sem acesso a sons, imagens ou figuras; sem que se dê conta se é dia ou noite; sem que sinta sequer a presença das sombras externas, como no Mito da Caverna de Platão. Quando um homem é posto assim, em absoluto isolamento, a sua própria mente se converte em seu mais cruel algoz.

É num contexto como este, que a nossa natureza animal revela um dos mais curiosos expedientes de adaptação e sobrevivência. No início, o ser isolado começa a conversar consigo mesmo, fala de suas raivas e frustrações; relembra a sua caminhada e as razões que o levaram àquela punição; pensa no que fará assim que sair dali. Contudo, não demora muito até que este solilóquio seja interrompido por um “mas”. Após a adversativa vem o esforço de compreender o “outro lado do assunto”. O monólogo se transforma em debate interior, como nos filmes de desenho-animado em que um diabinho fala à altura de um dos ombros e um anjo se coloca na posição oposta. O diálogo interno, tantas vezes uma salutar relação dialética interior, vai se fixando e as “personas” vão se cristalizando. Não tarda para surgir o necessário mediador entre o dois, uma terceira voz. Outras muitas vão chegando à medida que o isolamento prossegue. Se a liberdade não chegar logo, ao ser solto e se perguntar: Qual é o teu nome? Corre-se o risco de ter como resposta: “legião, porque somos muitos”.

Os nossos irmãos, monges tibetanos (se Francisco chamava o sol e a lua de irmãos, como não chamaria de irmãos seres humanos como eu), desenvolveram, após milênios de estudo e meditação, uma forma de aplacar esta fome voraz da alma por companhia. Chamam de Nirvana, um estado de quietude da mente, conduzindo-a, como quem poda bonsai, à uma libertação da tirania dos pensamentos, manifesta em uma condição profunda de silêncio emocional. Acho isso tudo lindo, mas prefiro um bom e simples “papo de mesa de bar”, técnica desenvolvida pelos “monges” cariocas de neutralizar o processo de multifacção da mente. Compreenderam que a melhor maneira de evitar que a sua mente se divida e fale um monte de besteiras é permitir que outras mentes o façam, ao sabor de um filé com fritas, tão essencial para os últimos sábios, quanto o incenso é para os primeiros.

A verdade é ainda mais antiga do que todas as até aqui referidas. Foi dita pelo Criador pouco antes da história humana começar: “não é bom que o homem esteja só”. É por esta razão que somos uma Comunidade Cristã, porque nada que é realmente significativo e importante se faz sozinho. A arte da vida é viver com e para os outros, sem ter a necessidade de viver como os outros. Aprender a ser quem é em respeito e comunhão com todos que são como são, na certeza de que tanto nós quanto eles somos “um processo”. Somente Deus é o que é. Paz e Bem!
Com carinho,
 
Martorelli Dantas
   martorelli@martorelli.org

julho 18, 2008

LIVRANDO-SE DAS GARRAS DA REJEIÇÃO

Filed under: Uncategorized — comuncrista @ 7:57 pm

Há basicamente dois tipos de acontecimentos na carreira humana: aqueles dos quais lembramos e alteram o curso de nossas vidas e aqueles dos quais nos esquecemos, mas que igualmente definem novos rumos para a nossa história. Logo, quer os fatos tenham sido lançados no profundo abismo do inconsciente, quer estejam continuamente presentes diante de nossos olhos, as nossas vidas são e serão sempre influenciados por eles. Isto porque não há encontro ou desencontro nesta existência que não nos mude, mesmo o mais rápido e aparentemente insignificante olhar, ou aquela leitura feita às pressas, deixam suas marcas naquilo que somos e continuamente estamos vindo a ser.

 

Faça uma experiência, pegue uma folha de papel em branco e peça para os seus amigos fazerem livremente desenhos, riscos ou escreverem palavras nela… assim é a sua alma. Cada pessoa que passa em sua vida deixa marcas. Estas podem ser mais ou menos visíveis, mais ou menos importantes, mais ou menos influentes no nosso peculiar modo de ser, mas estas marcas existem e estão lá. Obviamente que alguns destes registros podem ser um transtorno, podem nos influenciar negativamente, podem ser mesmo um peso para muitos de nós. Como não podemos simplesmente apagá-los, precisamos aprender a conviver com eles e corrigi-los, lançando, quem sabe, sobre eles novas compreensões que corrijam a rota que as malévolas impressões tentaram nos impor.

 

Sim, isto é possível e necessário. Na verdade, quer saibamos quer não, o tempo todo nossas memórias estão sendo, elas mesmas redefinidas por novos acontecimentos e/ou reflexões que fazemos. Nada em nós é estável e imutável, o oposto é que é a realidade. A única permanência é a contínua mudança de tudo em nós. Mas a questão é como fazer com que estas mudanças representem crescimento, amadurecimento e melhor qualidade de vida. É exatamente sobre a este esforço de auto-gestão emocional que eu quero dedicar este pequeno artigo.

 

O primeiro passo será sempre invocar para a consciência aquilo que nos incomoda. Desde Freud que falar sobre o assunto parece ser o melhor caminho para isso. Em lugar de fazermos o que geralmente nos parece mais cômodo, que é evitar aquelas temáticas que nos são desconfortáveis, é o caso de nos perguntarmos as causas de nos sentirmos como nos sentimos e de agirmos como efetivamente agimos. O princípio socrático do “conhece-te a ti mesmo” ainda é o mais seguro e produtivo percurso, muito embora, isto, por vezes, exija de nós mexermos em assuntos inquietantes e constrangedores. Esta trajetória pode exigir que nos encontremos com pessoas que estiveram presentes em nossas vidas na infância e até mesmo antes de nascermos para que possamos dominar completamente os sentimentos e acontecimentos que nos rodeavam neste período tão importante de nossa formação, pois sentimentos também são “acontecimentos relevantes”, na medida em que mesmo os sentimentos de outras pessoas entram em contato conosco de modo poderoso.

 

Um exemplo disso é a rejeição. Não ser ou não se sentir amado é algo duríssimo de lidar. É complicado saber que o que as pessoas nos fazem ou sentem por nós é o reflexo de suas próprias caminhadas e não, necessariamente, uma reposta ao que de fato somos. A realidade é que a rejeição ataca a nossa auto-imagem e pode nos machucar muito. Quando isto acontece com uma criança então as conseqüências, freqüentemente, são avassaladoras. Um bebê é um ser em formação em todos os sentidos, um feto o é também. Nesta fase já são completamente sensíveis ao amor, à raiva, ao medo e a toda sorte de sentimentos humanos. Imagine o que é ter a rejeição como o primeiro sentimento discernido pela alma! É terrível, mas, com a graça de Deus, nós podemos superar até mesmo isso.

 

Um caminho excelente para nos libertarmos das memórias que tentam nos aprisionar relacionadas à rejeição é lembrar que Deus nos ama e nunca, nem agora nem em nenhum outro momento de nossas vidas, Ele nos rejeitou. Ele que é santo e puro, diferente das demais pessoas com quem temos convivido, Ele que tem todos os motivos do mundo para nos virar as costas, jamais deixou de nos amar. Quando ainda estávamos no ventre de nossas mães, amados ou não por elas e pelas pessoas que a cercavam, nós éramos declarados eleitos pelo amor divino e desde então Ele deseja que nos aninhemos em seus braços ternos. Queria muito que todos nós mantivéssemos a mente bem consciente disso, que há um amor e uma aceitação que supera todas as outras. Nós somos e sempre seremos acolhidos em Deus. A única coisa que Ele deseja e espera de nós que aceitemos o seu amor por nós e que nos amemos também. Faça isso! Não rejeite nem a si mesmo nem a seus irmãos. Paz e Bem!

 

Com carinho,

 

Martorelli Dantas

martorelli@martorelli.org

ESCUTE A FLAUTA DO PASTOR

Filed under: Uncategorized — comuncrista @ 7:53 pm

Sempre me impressiona o fato de que todos nós, por mais simples que procuremos ser, estamos cercados de ameaças e de perigos. Não foi sem razão que Jesus nos advertiu que estava nos enviando como ovelhas para o meio de logos (Mt. 10:16). Os riscos são tantos que, não raro, para se sentirem mais seguras, muitas ovelhas preferem se transformar em lobos também, mais ou menos nos termos do adágio popular: “em terra de sapos, de cócoras com eles”. Sem dúvida, a vontade do Mestre é que aceitemos a “dangerossíma” aventura de continuarmos sendo ovelhas em um mundo cada vez mais empestado de seres famintos, ferozes, sagazes e traiçoeiros… esta é a natureza dos lobos.

 

Vi muitas vezes ao longo de minha vida o poder que têm os interesses mesquinhos para impulsionarem as pessoas. Como são capazes de iludir, mentir, machucar e seduzir… tudo para usar os outros para a satisfação de seus instintos adoecidos, que nunca cessam de cobiçar, de desejar com mais e mais intensidade, de alargar suas já incomensuráveis ambições. Num cenário assim é natural que nos desanimemos e, por vezes, até nos desesperemos. O tempo todo nos assedia o pensamento: será que vale a pena viver como somos neste mundo que é como é? Quando a resposta é “não, não vale” nem isso nos alivia a alma, posto que ser o que somos não é uma escolha, é a nossa natureza, como o é a dos lobos e raposas que nos espreitam.

 

É em momentos assim, quando tudo em mim é medo e tudo fora de mim é perigo, que me recordo de buscar ouvir a flauta do Pastor, como ensinou o Mestre Benjamim. Esta é uma estória do Rubem Alves em um de seus mais recentes livros, “Perguntaram-me se acredito em Deus”. Ele conta que em uma aldeia distante, numa brenha qualquer deste mundo, era costume que os meninos todas as noites fossem à tenda do Mestre Benjamim, para ouvir palavras de sabedoria que procediam dos lábios do homem mais sábio das redondezas. Numa noite em particular, em que chovia e relampeava e se podia escutar o uivo dos lobos misturado com o barulho dos ventos, as crianças estavam tomadas de medo. Uma delas com os resquícios de coragem que lhe restava, perguntou ao Mestre: é tão ruim sentir medo, não há modo de nos livrarmos do medo? Ao que recebeu como resposta: Há sim, basta ter a mente das ovelhas.

 

Mas como é a mente das ovelhas? Perguntou outra criança. Explicou Benjamim: as ovelhas são seres frágeis e indefesos, mas vivem cercadas de grandes e graves ameaças, são lobos, ursos e leões que por toda parte armam emboscadas e preparam ataques à procura de quem possam devorar. Como conseguem elas se sentir tranqüilas e seguras num mundo assim? Bem, as ovelhas têm um pastor que delas cuida e protege. Sua segurança não é o resultado da ausência dos perigos, mas da presença do pastor. À noite… quando se adensam as ameaças sob a sombra das trevas, o pastor toca a sua flauta. As ovelhas não vêem seu pastor, mas escutam o som de sua flauta e aquele som lhes penetra tão profundamente a alma e a mente que bane completamente todo medo.   O som doce e melódico do instrumento do pastor lhes recorda que ele as conduz para as águas tranqüilas e para os pastos verdejantes; que a sua vara e o seu cajado lhes protegem; que nem dormita nem dorme o seu bom pastor. Depois de ter contado isso, outra criança pergunta ao Mestre: os sons da flauta assustam os lobos e afastam os perigos? Ao que Benjamim responde: Não meu filho, o problema das ovelhas não é o perigo dos lobos, mas a força do medo que as paralisa e diminui. O som da flauta afasta o medo não os lobos.

 

Quanto tempo faz que você não escuta o som da flauta? Parece-me que estamos focados demais em nos manter livres dos lobos, que são cada dia mais ferozes, poderosos, sutis e ardilosos, para que nos reste tempo para identificar os numerosíssimos sinais da presença de nosso Pastor em nossas vidas. Estamos empenhados sobremaneira com ações humanamente preventivas, que visam manter longe os lobos, armados de inteligência e medo. Medo, medo… muito medo. Sem saber que o medo nos matará antes dos lobos e amaciará a nossa carne para suas gulosas refeições. Nós não podemos vencer todas as feras e basta uma para nos liquidar, mas podemos deixar que Deus nos livre do medo. Por isso, meu amigo e irmão, quando lhe assaltarem o medo ou o desespero decorrentes dos infindos perigos circundantes escute o som da flauta. Se prestar bem atenção conseguirá até ouvir que canção ela toca… é uma antiga melodia que diz: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”. Paz e Bem.

 

Com carinho,

 

            Martorelli Dantas

    martorelli@martorelli.org

junho 25, 2008

DO MUNDO VIRTUAL AO ESPIRITUAL

Filed under: Uncategorized — comuncrista @ 4:44 pm

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: ‘Qual dos dois modelos produz felicidade?’

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ‘Não foi à aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom, então de manhã você pode brincar dormir até mais tarde’. ‘Não’, retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã…’ ‘Que tanta coisa?’, perguntei. ‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse ‘tenho aula de meditação’!

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso, as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional.

Não adianta ser um super-executivo se não consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘Como estava o defunto’? ‘Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite’! Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega Aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra!

Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais.

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil – com raras e honrosas exceções – é um problema: a cada semana que passa temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!’ O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede, desenvolve de tal maneira o desejo que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los aonde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque para fora ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade – a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s.

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: ‘Estou apenas fazendo um passeio socrático. Diante de seus olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: ‘Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz’.

 Paz e Bem!

Frei Betto

 

AS FOGUEIRAS DE SÃO PEDRO

Filed under: Uncategorized — comuncrista @ 4:39 pm

Alguns elementos quase que desapareceram completamente dos festivos juninos, outros rarearam de tal modo que com muita dificuldade os vemos em nossos dias. Por motivos de segurança, desapareceram os belíssimos balões que enchiam de leveza e sedução os céus de minha infância; as residências com pequenas bandeirolas decorando-as e as ruas transformadas em arraiais dos folguedos matutos são praticamente impossíveis de ver com a naturalidade com a que eram encontradas anos atrás; as fogueiras que na década de 70 estavam presentes na frente de cada residência, hoje são encontradas apenas nas fachadas dos mais tradicionais, até porque muitos de nós moramos em apartamentos que ou inviabilizam ou esvaziam de sentido tudo isso.

Para os saudosistas como eu, já não existe a Festa de São João, pois já não há quadrilhas que não sejam dedicadas exclusivamente para dançarinos profissionais, não se encontram mais espaços onde seres “desuingados” como o autor deste texto, possa se alegrar e sorrir com seus pares na levada dos balancês e alavantus. Lembro como muitas vezes eu chegava em casa, depois de ir de arraial em arraial durante toda madrugada, por volta das 5h da manhã e passava pelos restos das fogueiras que tinham ardido durante toda a noite. Elas haviam passado pelas várias fases, a beleza da incandescência inicial, com labaredas altas e violentas, depois aquele ardor contínuo e leve, até chegar aos estertores, às cinzas ainda reluzentes, o melhor momento para assar um milho verde. Mas há fogueiras que não se apagam nunca. Que foram acesas há dois mil anos e continuam como na primeira noite.

Nos Evangelhos existem duas e apenas duas fogueiras, ambas relacionadas à pessoa de São Pedro. A primeira foi acesa no pátio exterior da casa de Anás, sogro do sumo-sacerdote Caifás, para onde Jesus foi levado depois de ter sido preso no jardim do Getsêmani (Lc. 22:55). Ali, assentou-se Pedro, tentando passar desapercebido no meio dos curiosos que se aglomeravam naquele local para saber qual seria o destino do Rabino Galileu. Foi nesta geografia que se realizou a tríplice negativa do apóstolo, afirmando em meio a juras e impropérios que não conhecia o Encarcerado. Esta é a fogueira da queda, da vergonha, da negação, do desrespeito. Nela os ideais e os compromissos de amor foram queimados, lançados ao fogo pela covardia associada à fraqueza. O resultado desta combustão terrível é a amargura de alma, foi assim que o pescador deixou aquele local e assim deve ter permanecido muitos dias, mormente porque em seguida Jesus foi julgado, crucificado e morto… e Pedro não estava lá.

Graças a Deus há outra fogueira. Esta não foi acesa pela curiosidade, pela necessidade ou pelo medo, mas por amor. Refiro-me àquela que foi acesa por Jesus, já ressurreto na praia do Mar da Galiléia (Jo. 21:9), lugar onde três anos antes ele havia travado os primeiros contatos tanto com Pedro, quanto com André e João. Os discípulos tinham voltado à antiga prática da pescaria, eles costumavam fazer isso durante a madrugada com o objetivo de atrair os peixes com a claridade de suas lamparinas, mas naquela noite, mais uma vez, eles não tinham tido sucesso, estavam terminando o trabalho daquela noite sem terem colhido nenhum resultado. Quando se aproximaram da margem, ouviram uma voz de homem que lhes perguntava se tinham apanhado alguma coisa e eles responderam que não. Foi então que este homem lhes disse: “joguem do lado direito suas redes!”. Fizeram isso e pescaram muitíssimos peixes. Aquela frase e aquele resultado levaram a João a recordar, a ter uma sensação de deja vu, e se deu conta que este homem era Jesus.

Eles puxaram os barcos para a praia e encontraram Jesus assentado em um canto, com a fogueira acesa e com alguns peixes assando, bem como pão para uma refeição matinal que teriam ali. Esta é a fogueira da restauração, ela não é apenas acesa por Jesus, os pães e peixes também são dele, ele tudo provê. Foi ali bem perto que o Salvador perguntou a Pedro: “tu me amas?” E ouviu por três vezes a mesma resposta do pescador: “Eu te amo”, ao que lhe disse Jesus: “apascenta as minhas ovelhas”. Sobre cada negação Cristo sobrepôs uma oportunidade de reafirmação da fé e do compromisso. Para cada ato de renovação, Jesus ofereceu uma corroboração da mesma antiga vocação de amor e serviço ao próximo.

Amigo, irmã… pode ser que você esteja vivendo a tristeza e a amargura da queda, ao redor da fogueira do desencontro, mas fique sabendo que seja lá o que você tenha feito, dito ou deixado de fazer, há uma outra fogueira para onde você pode ir. É lá que Jesus está lhe esperando para comer com você um sanduíche de peixe e te oferecer perdão e verdadeira paz, por falar nisso… Paz e Bem!

 Com carinho,

            Martorelli Dantas

     martorelli@martorelli.org

 

 

junho 13, 2008

ABRAÇO, UM SACRAMENTO

Filed under: Uncategorized — comuncrista @ 9:56 pm

Foto: Manu Souza

 

Em todas as nossas celebrações há pelo menos dois momentos em que somos convidados a nos abraçar: o abraço da paz, que ocorre durante a Eucaristia e a saudação aos visitantes, que ocorre no final de cada culto. Estes momentos não são sociais, simplesmente. Nem devem ser vistos como uma formalidade que integra a liturgia episcopal. São, antes, momentos de comunicação de vida e paz. Muitas pessoas já me disseram que foram mais tocadas espiritualmente pelo abraço que pelo sermão e pelos louvores, e o interessante é que os ministros deste sacramento somos todos nós. Não apenas os pastores, que são sacerdotes, ou as pessoas do louvor, que são levitas, mas cada cristão que carrega em seu coração o verdadeiro amor de Cristo.

O apóstolo Paulo, em muitas de suas epístolas, estimula as igrejas a que mantenham o hábito de usarem o beijo espiritual (ósculo santo) como saudação. Durante muito tempo pensei que isto estava relacionado tão somente a traços culturais. Hoje creio que o nosso irmão estava nos dizendo: “não desprezem o toque, as manifestações palpáveis de afeto e carinho, as percepções sensíveis de acolhimento e aconchego”. Há saúde nisso, há vida, edificação, consolação e esperança. Ainda mais em nossos dias, em que nossa sociedade se tornou tão individualista, materialista, tendente a usura e a descartabilidade, abraçar e ser abraçado se tornou essencial. Abraço sem erotismo, sem gestos aduladores, sem formalismo. Só amor, desejos proféticos de paz e alegria, toques eloqüentes na tarefa de dizer: “somos irmãos e você é muuuuito importante para mim”.

Não é sem razão que os antigos colocaram o abraço da paz no meio do sacramento da Eucaristia. Ele deve ser encarado como ato sacramental, denso de espiritualidade, cheio de transcendência, ou seja, que ele seja mais do que o que se pode ver ou sentir, que seja signo de algo maior, oculto no coração e revelado (ainda que só parcialmente) pelo toque de dois irmãos. Às vezes algumas pessoas se sentem desconfortáveis em nossos cultos e dizem: “vocês se agarram de mais”. Talvez esteja nisso um pouco da cultura anglo-saxã e nós precisamos respeitar isso. Mas ocorre que nós somos latinos, e não apenas isso, brasileiros e, se isso ainda é pouco, nós somos nordestinos. Amamos abraçar, beijar e andar juntos. É bom que seja assim.

Vivemos em um mundo que se assemelha a uma selva. Nele todos são ou caça ou caçador. Fomos educados a desconfiar de qualquer pessoa que se aproxime de nós e à medida que alguém vai diminuindo a distância nos sentimos obrigados a responder a pergunta que vem de regiões profundas de nossa alma: “é pra correr pra cima (se for uma possível presa) ou é pra correr pra longe (se for um potencial predador)?”. E acabamos nos comportando exatamente assim. Jesus veio ao mundo para nos tirar da selva e nos levar de volta ao jardim (em grego paradiso). Lá as regras são outras, o leão e o cordeiro pastam juntos; os filhotes do urso e o cabrito brincam juntos e uma criança os conduz. Nós não temos que esperar a morte chegar para conhecermos o paraíso; podemos construir pequenas antecipações aqui onde estamos. A este céu que, apressado, desce à terra o Salvador chamou de “reino de Deus”, e ele disse que o reino de Deus estava dentro de nós.

A esta altura você deve estar dizendo: “menos Martorelli, menos…, não sejamos utópicos!” Aí eu preciso concordar com você. A palavra utopia é composta por duas outras palavrinhas gregas: ou (que significa não) + topos (que significa lugar). Utopia, portanto, não é algo impossível, irrealizável, é só algo que não tem lugar, que não encontrou (ainda) um lugar. Vamos nos oferecer, pessoal e coletivamente, como topos em que se encarne o reino prometido. Então, este salão em que nos reunimos deixará de ser apenas um templo e se converterá em um oásis de calma e paz, uma fonte de esperança e Espírito. Eu não posso fazer isso acontecer sozinho, esta é uma construção coletiva, sem você e sua abertura e disponibilidade milhares de pessoas continuarão na selva, sem conhecer, nem por um momento sequer, as delícias do reino de Deus.

 

Um abraço,

Martorelli Dantas

       martorelli@martorelli.org

junho 5, 2008

EU ACREDITO EM DRAGÕES!

Filed under: Uncategorized — comuncrista @ 7:42 pm

Foto: Stafany Batista

 

Esta vida é engraçada. Existem lendas em que quase todos crêem e verdades nas quais quase ninguém acredita. Este é o caso dos dragões, aqueles seres com os quais estamos tão familiarizados desde crianças, que fazem parte das estórias que lemos, ouvimos e vimos em filmes e desenhos animados. De tanto vê-los assim, “mitificados”, somos induzidos a pensar que eles não existem, mas eles são bem reais. Eu mesmo já vi muitos dragões, e daqueles de cujas bocas saem fogo que consome suas vítimas.

 

Há uma ilha na Indonésia chamada Komodo. Lá encontramos dezenas de dragões, eles são chamados de dragões de Komodo, podem chegar a ter 3,5 m de comprimento e pesar 125 Kg. São enormes. Parecem-se com lagartos gigantes, mas se deslocam com lentidão. Sua arma letal é a boca inflamada. Assim como os tubarões, os dragões de Komodo têm fileiras de dentes, onde ficam depositados os restos de suas refeições e ali elas apodrecem, produzindo diferentes e potentes tipos de bactérias. Ao atacar suas vítimas, geralmente de emboscada ou aproximando-se delas silenciosamente, basta-lhes dar uma abocanhada e em seguida soltá-las. As bactérias farão o resto do trabalho. Seguem as vítimas de longe, vendo-as serem paulatinamente consumidas pelos pequenos monstros que eles nelas introduzem mordendo-as.

 

Sim, mas eles soltam fogo pela boca? Claro! Você já teve uma infecção violenta? Se teve, sabe que a sensação é que se está pegando fogo. Um calor que partindo do ferimento vai se espalhando por todo corpo e isso vai consumindo o enfermo. Se ele não for socorrido logo pode vir a óbito em poucas horas. É o caso das refeições do lagarto em tela. São Tiago diz que é comum haver também dragões humanos, mas neste caso o veneno, as mortíferas bactérias, não estão depositadas em seus dentes, mas nos órgãos da fala. Ele diz: “a língua é fogo; é mundo de iniqüidade; a língua está situada entre os membros de nosso corpo, e contamina o corpo inteiro e não só põe em chamas toda a carreira da existência humana, como é posta ela mesma em chamas pelo inferno” Tg. 3:6.

 

Estamos diante de uma realidade terrível, poucas pessoas têm sido vítimas em nossos dias dos dragões pesados e desajeitados de Komodo, mas em toda parte, na família, nos negócios, nas relações fraternas… abundam os que cambaleiam tocados por línguas ferinas que, nas palavras do escritor sacro, estão a serviço do diabo e do inferno. Mas como elas fazem isso? Há basicamente três formas de envenenamento: a mentira, a provocação e o lançamento de dúvidas. Muitas vezes estes venenos são administrados conjuntamente e acabam produzindo mais celeremente seus efeitos. Analisemos brevemente cada um deles.

 

A mentira sobre a qual estamos falando não é aquela que é animada pela covardia de quem não quer assumir a responsabilidade de suas escolhas e de seus erros. Referimo-nos à mentira que é a distorção de fatos com o objetivo de prejudicar uma pessoa. Mente quem inventa tais narrativas e quem as repassa sem que tenham sido verificadas, isto porque estes últimos são úteis ao propósito de destruir àqueles sobre quem se fala. Pergunte-se apenas uma coisa: se algo ruim está sendo dito sobre alguém, por que eu tenho que participar disso? Por que eu devo dar a minha contribuição para elamear a vida e a história de uma pessoa? Caso o que se diz seja verdade, ela não precisará de minha ajuda para se firmar. Caso não seja verdade, não é bom nos manchemos com o sangue de um inocente.

 

O segundo tipo de veneno a que nos dispomos a pensar é a provocação. Isto ocorre quando uma pessoa se permite instrumentalizar para lançar discórdia entre dois irmãos. Instiga um contra o outro, faz aquele papel de menino safado que fica dizendo: “carinha da mãe de um, carinha da mãe do outro”, para que crianças abobalhadas ferindo o objeto que representa a mãe do então adversário se envolvam numa briga, enquanto o que a provocou ri de ambos. Este é sem dúvida um agente do diabo. O livro de Provérbios diz que se há algo que Deus abomina é quem lança discórdia entre irmãos (Pv. 6:16-19) e Jesus nos ensinou que são bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus (Mt. 5:9). O que você é?

 

O último veneno a ser comentado é o que se presta a lançar dúvidas. Não se trata de mentira, porque a sagacidade do agente não o faz fazer afirmações. Nem se trata de provocação, porque necessariamente a dúvida não é lançada para criar contendas entre duas ou mais pessoas. Há pessoas que são realmente mestras em tirar a paz e a segurança dos outros, uma vez que o que nos aquieta a alma é a possibilidade de ancorá-la em alguma certeza. Em Otelo, o dramaturgo inglês Shakespeare, com refinamento incomparável cria o “inferno da dúvida”. Posto que a dúvida não nos tira apenas a determinação no agir, mas retira a tranqüilidade em decidir, seja lá qual for a decisão.

 

Quer um conselho? Afaste-se de dragões, sejam eles quais forem. Escute esta exortação: se você é dragão se converta!

 

            Com carinho,

  

Martorelli Dantas

 

martorelli@martorelli.org

 

junho 2, 2008

ENTRE NIETZSCHE E HODGE

Filed under: Uncategorized — comuncrista @ 8:51 pm

 

 

Quando me sentei para escrever este artigo, minha mente logo se reportou às palavras introdutórias de Nietzsche em A Gaia Ciência. Ele havia se recuperado de uma grave enfermidade e estava com o espírito em festa por poder volta ao labor da escrita. Disse que quando se vive este estado de “beirar a morte” e se tem a oportunidade de regressar às dinâmicas da existência, volta-se como quem “ama uma mulher em quem não se confia”. A mulher é a vida, amá-la é urgente, mas se faz isto sem que a entrega seja total, meio que com um pé atrás. Sabe-se que não se pode confiar no tênue fio que prende os mortais a este mundo. Durante os últimos quinze dias eu estive seriamente doente, como nunca antes tinha estado em minha vida. Já tive hepatite, cálculo na vesícula e viroses sem fim, mas nunca me senti tão debilitado, nem tão angustiado ante as demandas que continuamente assolavam minha alma, para as quais não podia dar resposta.

 

Nietzsche é a alma filosófica mais próxima a minha. Ele é muito mal-falado (nisto também nos identificamos), contudo a grande maioria de seus críticos arremessam contra ele suas setas sem que o tenham lido ou se esforçado para compreendê-lo. O ponto de partida para isso é lembrar que estamos diante de um filho e neto de pastor. Poucos sabem o impacto que crescer dentro de um ambiente densamente religioso pode causar numa alma. Meus avós, tanto maternos quanto paternos, eram religiosos, presbiterianos e congregacionais, respectivamente. De ambos os lados estava eu decisivamente influenciado pela teologia calvinista, vinda especialmente da matriz norte-americana, nas levas de missionários chegados ao Brasil em meados do século XIX, sob influência direta de Charles Hodge, o grande doutor de Seminário de Princeton.

 

Hodge era um pensador sistemático, como de resto o são os protestantes. Seu pensamento é esquemático, seu Deus é esquartejável, cabe em compartimentos, em tomos teológicos analisáveis pela lógica cartesiana. Fui durante mais de 15 anos professor de teologia sistemática e de hermenêutica bíblica. Trabalhei nos grandes seminários do Recife. Parece que fui um bom discípulo daqueles que são capazes de reduzir a vontade, a mente e as ações divinas em coordenadas e abscissas. Sabia fazer as interpretações que tomam os textos bíblicos como instrumentos de “prova” das antigas verdades (qualquer coisa de 400 anos é antiga para quem tem 40, contudo conheço heresias mais velhas). O dogma da harmonia das Escrituras era o martelo e o formão para deixar plano o sinuoso e a lamparina para clarear o obscuro. Mas fiquei velho para tais contorcionismos, quero ver o que se pode e aprender a andar na penumbra onde a natureza não lançou luz.

 

Nietzsche muito me ajudou nisso tudo. Aproximei-me dele através das frases bombásticas, como a maioria das pessoas. Afirmações como a de que Deus morreu me impressionaram, queria saber do que ele estava falando, queria ler o autor de contundentes assertivas, forjadas em um coração tumultuado, crescido num lar luterano. Entendi o que ele queria dizer. O deus que morreu é aquele que já não cabe em uma alma livre. Liberta pela revelação de que o verdadeiro Deus é Pai presente e amoroso, de que não é alguém a quem temer, mas para se confiar e contar. O filósofo alemão nos chama para viver o aqui e agora, mas acima dos tabus e preconceitos nascidos das taras moralistas da hipocrisia reinante. O deus que morreu é o de Hodge.

 

Faz alguns dias que eu estava com Karina, lendo, em minha convalescência, Crime e Castigo de Dostoievski. Ela, que cuidava de mim em uma daquelas intermináveis noites, me perguntou sobre o que queria Nietzsche dizer com a doutrina do “eterno retorno”. Expliquei-lhe que ele construiu um critério para validar as escolhas que fazemos em nosso dia-a-dia. Imagine que a vida é uma constante repetição, que as decisões que tomamos agora retornarão infinitamente. Ou seja, esta nossa conversa neste quarto voltará sempre a acontecer, tendo isto em mente se pergunte: é isso mesmo que eu quero fazer? Olhei em seus olhos e disse que seria para mim um imenso prazer viver para sempre o vivido ali. “Oh! Minha amada que olhos os teus!”.

 

Hoje, presente supremo de Deus que me fez voltar à vida, quero apenas caminhar e sorrir com meus companheiros. Buscar a alegria e fugir da dor, ajudando a quem puder a fazer o mesmo movimento existencial. Sofrer é inevitável, mas aprendamos com ele. E em tudo nos esforcemos para não fazer sofrer.

            

Com carinho,

 

Martorelli Dantas

     martorelli@martorelli.org

 

maio 15, 2008

DESCOBRINDO TRIBUNAIS [COM BASE EM MATEUS 7:1-5]

Filed under: Uncategorized — comuncrista @ 11:14 pm

 

Há pessoas que são assim expansivas e alegres, gostam de contar anedotas e fazer piadas, e isso com uma graça e um brilhantismo que podemos dizer que são palhaças, no melhor sentido da palavra, aonde chegam armam um circo. Há outras que têm o dom do ensino, são pedagogas por natureza. Sabem comunicar aquilo que conhecem com grande eficiência, aonde chegam há quem se sente ao seu redor para ouvir e receber o seu ensino. Elas vivem armando escolas. Há, ainda, aqueles cuja presença impõe uma ordem, elas motivam as pessoas a ações, a atos de coragem e heroísmo. É impressionante como são organizadas e organizadoras. Aonde chegam armam quartéis.

 

Mas hoje eu quero lhes falar de um quarto grupo de pessoas. O palco destas não é o picadeiro, seu material de trabalho não é a lousa, nem seguem ditando a marcha daqueles que estão ao seu redor. Hoje eu quero lhes falar sobre os que armam tribunais. Sobre aqueles que vivem colocando seus semelhantes, amigos e parentes, e não raro a si mesmos, diante de cortes de justiça.

 

Todo mundo para eles é um réu em potencial; eles não têm relacionamentos, têm processos; estão o tempo todo formulando ou recebendo queixas, denúncias…construindo casos; não dão opiniões, emitem sentenças. Se não são juízes por ofício, o são por vício. Faltam magistrados no Judiciário, mas eles abundam por toda parte, em casa, no trabalho, na escola e até mesmo na igreja de Cristo Jesus.

 

O texto que propomos no título faz parte do Sermão da Montanha e é um imperativo no sentido de que não sejamos juízes de nossos irmãos. João já nos disse que Deus enviou o seu Filho ao mundo não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele (Jo. 3:17). E o mesmo Jesus, que não encarnou na condição de juiz, nos diz que nós não devemos julgar aos nossos semelhantes.

 

E por que não devemos julgar os nossos irmãos?

 

1.       Porque Deus não nos confiou esta autoridade. Assim, quem julga o seu irmão está usurpando um poder e um direito que o Pai reservou exclusivamente para si na presente dispensação;

 

2.       Porque como irmãos somos suspeitos para exercer juízo sobre eles. Nós somos sempre família do réu, e o nosso lugar não é a cátedra de juiz, mas o banco humilhante e frio, especialmente reservado para os parentes de quem está sendo julgado;

  

3.       Porque também somos culpados de nossos próprios pecados. Como pecadores, temos consciência que chegará o momento em que seremos julgados pelo bem ou mal que tivermos praticado. Somos réus no tribunal da graça e da misericórdia de Deus;

 

4.       Porque o fato de sermos igualmente pecadores, impede que vejamos os pecados de nossos irmãos de forma adequada, para que possamos fazer qualquer juízo válido e competente;

 

5.       Porque quando julgamos alimentamos o monstro das relações judicantes, que findarão apor vitimar a nós mesmos.

 

Alguns podem dizer que este tipo de postura estimula a impunidade no meio da igreja e finda por favorecer um tipo daninho de permissividade. Eu creio que não!

 

É minha função dizer que o adultério é pecado. E o adúltero? Entreguemo-lo ao Senhor. É minha obrigação ensinar que o homossexualismo é pecado. E o homossexual? Entreguemo-lo a Deus. É minha obrigação afirmar que a mentira é pecado. E o mentiroso? Entreguemo-lo a Deus.

 

O que torna tão difícil fazer isso, não é o zelo pela santidade e pela pureza do corpo de Cristo, é a nossa ânsia, quase irresistível, pelo exercício judicante em desfavor de nosso semelhante.

 

O que fazer para se livrar do hábito de armar tribunais?

 

1.       Reconheça que o seu pecado é maior do que o de seu irmão (argueiro e a trave). Quanto mais nós nos conhecemos, mais nos damos conta de nossas fraquezas e pecaminosidade. Eu não conheço a ninguém tão bem como eu conheço a mim mesmo;

 

2.       Dedique-se ao seu processo de santificação e não àquele que está sendo desenvolvido pelo seu irmão (tira primeiro a trave de teu olho). Cada um tem o seu próprio desafio de construção de um mundo interior mais puro e harmônico, não há tempo para sermos operários deste projeto pessoal e, simultaneamente, fiscais dos alheios. Quando nos dedicamos a esta tarefa, deixamos de lado aquela;

 

3.       Aconselhe seu irmão sobre o que você entende ser certo ou errado, à luz da Palavra de Deus. Se necessário faça isso com uma ou duas pessoas amigas, que lhe ajudem nesta tarefa, e depois, caso ele não lhes dê ouvidos, entregue-o ao Senhor (Mat. 18:15-17);

 

4.       Renuncie (peça demissão em caráter irrevogável) da função de juiz de seu irmão e peça perdão a Deus por durante tanto tempo ter ocupado indevidamente uma função que é só dEle. Quando no futuro se sentir tentado a voltar a julgar alguém, ou lhe pedirem para fazê-lo, diga: “Desculpe, eu não posso. Estou aposentado depois de muitos anos de serviço” 🙂

 

O difícil não é conhecer a Jesus, é amá-lo; o difícil não é entender a sua mensagem é acatá-la; o difícil não é saber qual é a sua vontade, mas obedecê-la. É por isso que Jesus disse que “aqueles que ouvem estas minhas palavras e as pratica é semelhante ao homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha…” (Mat. 7:

 

Reflita sobre as seguintes questões:

Ao julgar eu sou mais severo com o meu próximo ou comigo mesmo? Que benefício traz ao mundo estes constantes julgamentos a que me habituei? Que valor tem o juízo de quem não tem legitimidade para julgar?

 

Parar de julgar é como fazer uma dieta, não adianta nós nos comprometermos que não nos excederemos mais, que a partir de “amanhã” será diferente. A única coisa que resolve mesmo é parar agora, simplesmente isso.

 

Com carinho,

 

Martorelli Dantas

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